Hoje levantei cedo achando que seria apenas mais um dia. Não que eu o desmerecesse como um dia qualquer, mas apenas imaginei que seria mais um dia de vida comum. Até então, a vida não havia me trazido nada de especial.
Durante a tarde, buscando algum entretenimento, acabei revendo um filme que um dia já havia me tocado. Desta vez, porém, ele me trouxe uma reflexão diferente: o que de fato já foi fácil um dia?
Quando vemos filmes ambientados em tempos antigos, sem pensar muito, poderíamos imaginar que a vida fosse mais simples do que hoje. Mas, sob uma análise um pouco mais fria e reflexiva, não é difícil perceber que “antigamente” nunca foi sinônimo de facilidade.
Por volta de 19hs00, a vida não era saturada de informações e estímulos como é hoje. Por outro lado, a falta de recursos materiais tornava tudo mais difícil. Faltavam medicamentos, alimentos seguros, veículos, assistência médica, profissionais capacitados e tantas outras coisas que hoje consideramos básicas.
No campo moral, a rigidez social era predominante. Valores eram estabelecidos de forma firme e dificilmente se dobravam a mudanças repentinas ou modismos. Talvez até existissem tentativas de ruptura, mas elas provavelmente encontravam um grande “não” coletivo.
Hoje a situação parece invertida. Aquilo que antes faltava e hoje chamamos de básico para sobreviver, medicamentos, alimentos embalados, transporte, infraestrutura, tornou-se comum. Temos penicilina, arroz ensacado, carne congelada, carros e rodovias.
Ainda assim, continuamos sendo pressionados por novas exigências: carros importados, casas “instagramáveis”, corpos perfeitos, carreiras bem-sucedidas. A pressão agora é interna. O indivíduo passa a se cobrar constantemente por padrões que muitas vezes nem são seus.
De certa forma, os problemas evoluíram. Mudaram de forma, de objeto e de linguagem, mas a dificuldade permaneceu.
Vivemos em uma época em que, sob uma espécie de liberdade vigiada, podemos ser quem quisermos ser. Ao mesmo tempo, a ausência de certa rigidez dissolve valores com facilidade. O indivíduo torna-se, muitas vezes, conveniente ao momento, mostrando aquilo que deseja aparentar, e não necessariamente aquilo que realmente é.
No fim das contas, a conclusão parece simples: a vida nunca foi fácil.
E talvez não adianta esperar por uma “colher de chá” do mundo. Às vezes o melhor a fazer é olhar ao redor, analisar com calma, abandonar certas ilusões e continuar seguindo.
Sempre vivendo.
Nunca apenas sobrevivendo.
